El Niño no Brasil: o que é o fenômeno, quais regiões são mais afetadas e quais são os riscos para pessoas e empresas

O El Niño é um dos fenômenos climáticos mais relevantes do planeta, e também um dos que mais impactam diretamente o Brasil. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, ele altera padrões atmosféricos em escala global, provocando mudanças significativas no regime de chuvas, nas temperaturas e na ocorrência de eventos extremos.

Com previsões indicando a formação de um novo ciclo ao longo de 2026, o tema volta ao centro das discussões sobre clima, economia e gestão de risco. Mais do que entender o fenômeno em si, torna-se essencial compreender como seus efeitos se distribuem pelo território brasileiro, quais são os principais riscos para a população e de que forma empresas e setores produtivos podem ser impactados.

Neste artigo, você vai entender o que é o El Niño, como ele afeta cada região do Brasil e quais são os impactos esperados para pessoas e empresas, além de caminhos possíveis para antecipação e preparo diante de um cenário climático cada vez mais desafiador.

Boa leitura!

O que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno climático natural provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, próxima à costa da América do Sul. 

Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste e mantêm as águas mais quentes concentradas no Pacífico Ocidental, próximo à Oceania. 

Quando esses ventos enfraquecem ou mudam de direção, as águas quentes se deslocam para o leste, aquecendo a superfície oceânica perto da costa da América do Sul. 

Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global, e o Brasil sente os efeitos dessa mudança.

O fenômeno ocorre em intervalos irregulares de dois a sete anos, com duração típica de nove a doze meses. Quando é intenso, seus reflexos sobre o clima podem se estender por anos.

Como o El Niño afeta cada região do Brasil

O fenômeno não impacta o país de forma uniforme, cada região experimenta efeitos distintos e, em muitos casos, opostos. O mapa acima resume esse padrão. Abaixo, o detalhamento de cada região.

Sul — A região Sul é a mais diretamente afetada pelo excesso de chuvas durante o El Niño. O aumento do volume de precipitações no Rio Grande do Sul foi um dos fatores que contribuiu para a inundação histórica de maio de 2024, que afetou cerca de 70% dos municípios do estado e impactou diretamente quase 900 mil habitantes. Enchentes, deslizamentos e danos à infraestrutura rural e urbana são os principais riscos.

Nordeste — O padrão é inverso. No Norte e Nordeste, o El Niño tende a trazer períodos mais secos, com redução significativa das chuvas, o que é motivo de atenção especial para o setor elétrico (reservatórios) e para o agronegócio, que pode sofrer com a quebra de safra devido à estiagem.

Centro-Oeste — O Cerrado enfrenta calor acima da média e distribuição irregular de chuvas, com períodos prolongados sem precipitação. O Mato Grosso registrou em 2023 o menor volume anual de precipitação, segundo dados do INMET, acumulando apenas 760 mm de chuva ao longo do ano — um dos menores índices já registrados. O risco de queimadas é intensificado.

Sudeste — O Sudeste apresenta um padrão duplo: chuvas intensas e aumento das temperaturas ameaçam culturas cruciais como cana-de-açúcar, laranja e café, enquanto a infraestrutura enfrenta riscos de inundações, deslizamentos e tempestades que podem afetar estradas, portos e redes de distribuição de energia.

Norte (Amazônia) — Na Amazônia, a previsão para 2026 indica cheias mais expressivas dos rios, seguidas por uma vazante mais acentuada, com expectativa de períodos prolongados de calor e estiagem. A seca prolongada favorece incêndios de grandes proporções e ameaça a biodiversidade.

mapa do Brasil apontando os principais impactos do el nino por região do país
Texto feito pot humano, imagem gerada por IA.

Impactos para as pessoas

Os efeitos do El Niño sobre a população vão além das imagens de enchentes ou campos secos. Eles se traduzem em riscos concretos à saúde, à segurança e ao acesso a serviços básicos.

Saúde pública. As ondas de calor provocam aumento nas internações por problemas respiratórios e cardiovasculares, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com condições preexistentes. O ar seco se deteriora com o aumento de incêndios e queimadas, e a qualidade do ar piora de forma significativa, afetando diretamente alérgicos, idosos e crianças. Além disso, o calor favorece a proliferação de vetores como o Aedes aegypti, elevando os riscos de dengue, zika e chikungunya.

Segurança. Nas regiões Sul e Sudeste, as chuvas extremas provocam enchentes e deslizamentos que ameaçam vidas e destroem moradias. No Norte e Nordeste, a seca compromete o acesso à água potável e aumenta tensões em torno de recursos hídricos em comunidades rurais.

Abastecimento. A quebra de safras eleva os preços de alimentos, pressionando especialmente as famílias de menor renda. A crise hídrica compromete o abastecimento nas cidades e reduz a geração de energia hidrelétrica, com reflexos na conta de luz.

Impactos para as empresas

Para o setor produtivo, o El Niño representa um risco sistêmico que atravessa cadeias inteiras — da fazenda ao porto, da geração de energia ao varejo alimentar.

Agronegócio. É o setor mais exposto. De acordo com o Estadão, a seca que atingiu a região Sul e partes do Centro-Oeste e do Sudeste entre o final de 2022 e o primeiro trimestre de 2023 levou a prejuízos de US$ 15,3 bilhões (cerca de R$ 75,5 bilhões), na quarta maior perda econômica associada a eventos climáticos no mundo naquele ano, segundo estimativa da consultoria de riscos Aon. Soja, milho, café, cana-de-açúcar e laranja estão entre as culturas mais vulneráveis.

Energia. No segundo semestre de 2026, a possível consolidação do El Niño pode trazer maior volatilidade ao equilíbrio entre geração, consumo e operação do sistema elétrico nacional. A distribuição geográfica das chuvas é o fator determinante: o desempenho hidrológico das principais bacias brasileiras — Paraná, Grande, Paranaíba, São Francisco e Tocantins-Araguaia — define a segurança energética do país.

Logística e infraestrutura. Setores como construção, mineração, transporte, portos e saneamento precisam adotar medidas estratégicas para minimizar os impactos adversos, incluindo sistemas de drenagem e infraestruturas resilientes. Pontes danificadas, estradas interditadas e portos com operação comprometida geram gargalos que afetam toda a cadeia de abastecimento.

Seguros e gestão de risco. Analistas descrevem o El Niño como um gerador de “risco climático assimétrico”: um tipo de risco em que os impactos negativos potenciais tendem a ser mais intensos e concentrados do que os eventuais benefícios, afetando de forma desigual regiões, setores e cadeias produtivas. Empresas sem estratégias de gestão de risco climático ficam mais expostas a sinistros, interrupções operacionais e perdas de receita.

El Niño e mudança climática: uma combinação perigosa

O El Niño nunca acontece em isolamento. Ele interage com um sistema climático já alterado pelo aquecimento global, e essa combinação amplifica seus efeitos.

Os dois anos mais quentes da história coincidiram com a atuação de um El Niño forte. Mesmo durante o ciclo recente, com o Pacífico mais frio do que o normal entre 2024 e 2025, 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado, o que indica que novos recordes de temperatura podem ocorrer nos próximos anos.

Para o Brasil, isso significa que cada novo episódio de El Niño tende a chegar sobre um clima já mais extremo do que o anterior. As secas ficam mais longas. As chuvas ficam mais intensas. Os eventos climáticos que antes eram considerados excepcionais tornam-se parte da rotina.

O que esperar nos próximos meses

As previsões indicam que o El Niño deve causar transtornos ao longo de 2026, com aquecimento persistente do Oceano Pacífico ao longo do ano, o que significa que tanto o inverno de 2026 quanto o verão de 2026–2027 devem ser climaticamente afetados pelo fenômeno.

O Brasil não pode evitar o El Niño. Mas pode se preparar melhor para ele. Compreender o fenômeno, monitorar suas previsões e traduzir esse conhecimento em ações concretas — individuais, empresariais e públicas — é o que diferencia sociedades resilientes daquelas que apenas reagem depois do estrago.

Como antecipar e se preparar

O El Niño é previsível, não com precisão de curto prazo, mas com antecedência suficiente para permitir decisões estratégicas. A chave está no monitoramento contínuo e no planejamento antecipado.

Para pessoas e comunidades, acompanhar os alertas do INMET e da Defesa Civil é o primeiro passo. Conhecer os riscos específicos da região em que se vive — enchentes, deslizamentos, seca, ondas de calor — permite ação preventiva antes que os eventos se materializem.

Para empresas, a integração de dados climáticos ao planejamento estratégico deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade. Isso inclui avaliação do risco climático na cadeia de fornecimento, diversificação de rotas logísticas, revisão de coberturas de seguro e modelagem de cenários hídricos e energéticos.

O setor público, por sua vez, precisa ampliar investimentos em infraestrutura de drenagem, sistemas de alerta precoce e políticas de adaptação que contemplem as populações mais vulneráveis, as que menos contribuíram para as mudanças climáticas, mas que pagam o preço mais alto por elas.

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